Num mundo em que nada é feito para durar e o consumo é desenfreado, o lixo é cada vez mais abundante. Quando algo avaria ou se estraga, vai para o lixo. A solução é comprar algo novo. O ciclo repete-se indefinidamente, com impacto devastador no ambiente. Quando falamos de mobiliário, as alternativas low cost são cada vez mais variadas e apetecíveis, é certo. Mas e as consequências?

“A tralha de uns é o tesouro de outros”

A tralha atelier é a nossa proposta para contrariar esta tendência. Esta marca emergente visa resgatar objetos aparentemente sem utilidade e dados como “lixo”, atribuindo-lhes um novo carácter e função. Pegar no que é descartado e torná-lo novo outra vez.

Sentimos a necessidade de reutilizar peças com história. Os rótulos de algo como sendo “tralha” ou como estando “em fim de vida” são redutores e não representam a capacidade que o objeto tem de se transformar e, assim, se reinventar. A nossa missão passa por, ao invés de produzir novos materiais e de forma massificada, resgatar o que existe e atribuir-lhes uma nova vida, através de um twist de reciclagem criativa – o chamado upcycling. Assim, conseguimos combater a dinâmica “compra, estraga, deita fora” e fazer um exercício de exploração do que já existe.

Com isto, criamos peças únicas, criativas e cheias de personalidade. E como é que o fazemos? 

Entendemos que é fundamental revisitar a filosofia de restaurar, ou dar uma segunda vida, a peças de mobiliário danificadas ou esquecidas, mas agora com uma nova abordagem mais criativa. Quando a vida nos dá uma estante, podemos fazer duas mesas, por exemplo.

Tal como as pessoas, as nossas peças têm personalidade. Para as diferenciar, atribuímos-lhes nomes próprios, que podem ser o nome do seu antigo dono, do doador, ou o nome da rua onde foi encontrada. Assim, mantemos a história destas pessoas viva, juntamente com cada peça na sua forma material. 

Foi o caso do Francisco, que estava abandonado na rua. Assim que passámos por ele sentimos logo uma química e tivemos de o trazer connosco. Foi uma verdadeira história de amor: houve muito carinho, dedicação, paciência e até calorzinho à mistura, uma vez que tivemos de soldar os pés! O que é bonito é para se ver, por isso mantivemos o tom da madeira original e deixámo-lo brilhar por si só. Depois disso foi só seguir para uma casa que lhe desse tanto amor como nós demos.

Assim como o Francisco, a Esmeralda também ficou completamente diferente do que era há uns tempos! De uma mesa de apoio sem tampo e bastante suja, passou a ser uma peça digna de ser apreciada (e utilizada!). Uma boa lixa, primário, tinta, verniz, polimento dos pormenores dourados nas pernas e muito amor fazem milagres. Por fim, um tampo de vidro reaproveitado cortado à medida e conseguimos com uma peça praticamente nova!

“Esmeralda”

Para além das peças que resgatamos e modificamos para venda ao público, também aceitamos pedidos de personalizações. Se um cliente tiver uma peça que queira modificar, pode contactar-nos e teremos todo o gosto em trabalhá-la, de forma a que volte a servir as suas necessidades.

Num desses casos, uma cliente contactou-nos porque tinha um aparador de madeira muito escuro que queria oferecer ao filho, para a sua casa nova. Inspirada numa das nossas peças – a Ana -, a cliente explicou-nos o que gostava de fazer: utilizar a mesma cor cinzenta e manter alguns pormenores em madeira. Pusemos mãos à obra e depois de muita lixadela, aplicação de palhinha, pés novos, polimento dos puxadores e uma nova cor, chegámos à peça final. Conseguimos entregar um aparador bem mais leve, que ganhou uma nova vida.

E claro, não podíamos deixar de referir a Lurdes e o Joaquim, duas mesinhas de cabeceira compradas no início da década de 70 e que pertenciam a um casal homónimo. No caso da Marta, uma seguidora da nossa página, entregou-nos umas pernas de ferro, ferrugentas e sem tampo. Polimo-las, mudámos a cor, juntámos um tampo rústico em madeira e ainda tivemos oportunidade de experimentar um material novo para nós, até então: a epoxy. Simples e elegante, de uma estrutura sem utilidade passámos a ter uma peça de apoio que se enquadra bem em qualquer espaço, que ficou com o nome da sua antiga dona.

Todo este processo de modificação é feito tendo em conta alguns métodos mais sustentáveis, tais como o aproveitamento da água de lavar as mãos para outros fins: descargas de autoclismo, por exemplo. Além disso, também prolongamos a vida a alguns materiais antes de os descartarmos, como é o caso de latas de grão e caixas de gelado, para a organização do espaço.

Para além do aproveitamento de materiais, sabemos a importância das compras em segunda mão. Se um objeto já passou pelo processo de produção, existe e está em ótimas condições, porquê comprá-lo novo? Assim, optámos por seguir esta prática quando tivemos de adquirir os eletrodomésticos que temos no atelier. Desde o microondas à máquina de café, sentimos que esta decisão de compra em segunda mão teve um impacto positivo.

Mas nem só de “tralha” vive a tralha atelier!

Porque sabemos que antes de dar uma segunda vida aos objetos, é importante fazer com que a primeira vida seja o mais duradoura possível, aconselhamos a estimar bem as peças, limpá-las com produtos adequados, proteger as superfícies que potencialmente estarão mais expostas a contacto e atacar o bicho da madeira desde o início, evitando que ele se espalhe pelo resto da mobília.

Outra dica económica e sustentável passa por renovar a disposição da divisão em vez de comprar móveis novos. Se calhar não precisamos de comprar um sofá novo, se calhar precisamos só de trocar o sítio onde o sofá está colocado.

No futuro, e por forma a conseguirmos um impacto ainda mais positivo, pretendemos fazer parcerias com marcas e fornecedores no sentido de potenciar o aproveitamento de materiais que possam estar imperfeitos e, consequentemente, terem como destino final o lixo. 

Para além do atelier em Lisboa onde trabalhamos as peças, estamos presentes nas redes sociais, em instagram.com/tralha.atelier e facebook.com/tralha.atelier e partilhamos estas e outras dicas para uma vida mais sustentável com a #discasdatralha

Por detrás deste projeto, a equipa da tralha atelier são 3 familiares:

Catarina Capelo

Trabalha há vários anos como Designer de Comunicação. Sentindo que faltava algo que a fizesse sentir realizada, descobriu a paixão pela reutilização e o caminho da sustentabilidade. Com ela no atelier, a água de lavar os rolos ainda dá para lavar os pincéis, e deixar os próximos de molho! Tenta sempre aproveitar tudo ao máximo. Os dias da Catarina parecem não ter só 24 horas: há sempre mais um espacinho para encaixar um DIY. A tralha atelier nasceu de uma certeza: não deixar nada para trás sem lhe dar toda a utilidade possível.

Tiago Sousa

Formado em Design de Comunicação, esteve sempre disponível para aceitar diferentes desafios profissionais. Uma das suas grandes paixões é a música. Gosta tanto que a primeira coisa que faz quando chega ao atelier (mesmo antes de vestir a roupa de trabalho) é ligar o rádio. Rock, pimba ou blues, venha o que vier, ele gosta é de bater o pezinho. Em miúdo, lembra-se de ver o avô na bancada de trabalho, a construir peças de madeira de raiz. O gosto do seu pai pela bricolage, despertou-lhe o gosto pelas artes manuais e este tipo de trabalhos. A tralha atelier nasceu da vontade de passar à prática e atribuir personalidade às peças que faz.

Rita Capelo

Designer de Cena – Artes do Espetáculo, trabalhou em diversos projetos referentes ao objeto artístico. Cenários grandes não lhe metem medo: já criou ambientes para diversas peças de teatro. Com a Rita poupamos na fatura da eletricidade: sente-se tão à vontade no atelier que encontra as ferramentas que precisa de olhos fechados. Dedicada totalmente a este universo, a tralha atelier nasceu da certeza de que existe sempre um outro olhar perante um objeto que parece estar em fim de vida.

Assim, conseguimos combater a dinâmica “compra, estraga, deita fora” e fazer um exercício de exploração do que já existe.

Tralha atelier